segunda-feira, 28 de setembro de 2009

E José Sócrates venceu as eleições...

O Partido Socialista venceu as eleições legislativas sem maioria absoluta. A vitória do PS é fundamentalmente a vitória de José Sócrates. O PSD de Manuela Ferreira Leite foi derrotado, tornando provável o seu afastamento depois das eleições autárquicas. O Bloco de Esquerda de Francisco Louçã e a CDU de Jerónimo de Sousa ficaram aquém das expectativas, o que não justifica a euforia triunfal manifestada pelos líderes. O CDS-PP de Paulo Portas foi talvez a grande surpresa eleitoral: é a terceira maior força política representada no Parlamento. Quando olho para a composição política do Parlamento que saiu destas eleições, fico arrepiado: vejo na Direita a causa do atraso nacional e da corrupção generalizada, e na Esquerda, um bloco de conservadorismo hermético, de resto bem protagonizado pelo PCP. A primeira desvia e empobrece, a segunda tem um programa de despesas descomunais sem dizer onde vai buscar o dinheiro para financiar tudo o que promete: ambas mostram não estar preocupadas com o futuro de Portugal que mergulha cada vez mais fundo na pobreza, incluindo a pobreza mental e cognitiva, e na miséria. A demagogia oportunista não cria riqueza e, sem riqueza, não há futuro liberto de preocupação.
Os resultados eleitorais são os seguintes:
PS: 36,56% (96 deputados).
PSD: 29,09% (78 deputados).
CDS-PP: 10,46% (21 deputados).
BE: 9,85% (16 deputados)
CDU: 7,88% (15 deputados).
Estou feliz com a vitória do PS, mas não o suficiente para acreditar no futuro de Portugal: a maioria escassa da esquerda não garante estabilidade política. Com exclusão do chamado bloco central (PS + PSD), as outras alianças maioritárias envolvem um acordo estável ou com o CDS-PP (PS + CDS) ou com todas as forças políticas de esquerda unidas (PS + BE + CDU). O discurso dogmático de Francisco Louçã exclui à partida um diálogo produtivo com o PS e o número de deputados conquistados pelo BE não garante uma solução maioritária com o PS. Neste cenário, é provável que o PS rejeite a hipótese de fazer uma coligação pós-eleitoral que garanta uma maioria parlamentar, optando por acordos pontuais. É certo que as maiorias absolutas são seduzidas por algum tipo de arrogância ou mesmo de abuso de poder, mas o regime das negociações permanentes bloqueia a formulação de uma estratégia nacional de desenvolvimento e de modernização, ao mesmo tempo que promove a corrupção distribuída. Daí o meu cepticismo quanto ao futuro de Portugal... Os líderes políticos portugueses chamam-se José Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Paulo Portas, Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa. Embora conheçam as figuras, os portugueses desconhecem completamente aquilo que interessa em política: os projectos de futuro que supostamente defendem para tirar Portugal da estagnação total.
J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Joseph de Maistre vota em Manuela Ferreira Leite

Dos filósofos políticos, Joseph de Maistre é o único que vai votar em Manuela Ferreira Leite, porque se reconhece no seu discurso anti-democrático e salazarento.
Joseph de Maistre (1753-1821) tem sido retratado de diversas maneiras, mas, como demonstrou Isaiah Berlin, o seu objectivo primordial «foi destruir o século XVIII e seu pensamento racionalista». A sua teoria fundamental afirma que «a natureza tem os dentes e as garras sangrentos, é um vasto cenário de carnificina e destruição».
«No vasto domínio da natureza viva reina uma violência aberta, um género de fúria prescritiva que arma todas as criaturas para a sua perdição comum. Assim que deixamos o reino inanimado, deparamo-nos com o decreto da morte violenta inscrito nas próprias fronteiras da vida. Sentimo-lo logo no reino vegetal: da enorme catalpa à erva mais pequena, quantas plantas morrem e quantas são mortas! Mas no momento em que entramos no reino animal, esta lei revela-se subitamente com a mais aterradora evidência. Um poder violento, ao mesmo tempo oculto e palpável (...), designou, em cada subdivisão principal dos animais, um determinado número de espécies para devorar as outras. Assim, existem insectos predadores, répteis predadores, aves de rapina, peixes predadores, quadrúpedes predadores. Não há instante de tempo em que uma criatura não esteja a ser devorada por outra. O homem está colocado acima de todas essas numerosas raças de animais e a sua mão destruidora não poupa nada que tenha vida». (J. de Maistre)

Esta concepção crua e despida de lentes teóricas, metafísicas, lógicas ou geométricas, da natureza aplica-se também ao homem que, apesar de nascer para amar, é de todos os animais o mais violento e cruel:

«O homem mata para se alimentar e mata para se vestir. Mata para se adornar e mata para atacar. Mata para se defender e mata para se treinar. Mata para se divertir e mata por matar. Rei soberano e terrível, tudo deseja e nada lhe resiste (...). Ao cordeiro (exige) as suas entranhas para fazer ressoar a sua harpa (...), ao lobo o seu dente mais mortífero para polir as suas frívolas obras de arte, ao elefante as suas defesas para construir o brinquedo de uma criança: cobre a sua mesa de cadáveres (...). Mas quem (na carnificina permanente) exterminará aquele que extermina todos os outros? Ele próprio. É o homem o responsável pela chacina do homem (...). Assim se cumpre (...) a grande lei da destruição violenta dos seres vivos. A Terra inteira, perpetuamente embebida em sangue, nada mais é do que um imenso altar, sobre o qual tudo o que vive tem de ser imolado sem fim, sem medida, sem descanso, até à consumação das coisas, até à extinção do mal, até à morte da morte». (J. de Maistre)

A guerra é divina e, como tal, constitui a lei do mundo. Se quisermos compreender o comportamento humano, devemos abandonar as teorias racionalistas e procurar a sua explicação no domínio irracional. O cálculo racional não ajuda a vencer as guerras, ideia usada recentemente por Bauman para explicar o holocausto, porque a razão não é a grande soberana dos acontecimentos. Contra o racionalismo predominante no seu tempo, embora exibindo tonalidades diferentes mas francamente optimistas, J. de Maistre defende três teses deveras obscurantistas e claramente antidemocráticas:

1. A única coisa capaz de dominar sempre os homens é o «mistério impenetrável», que Maistre coloca no lugar da razão e do conhecimento emancipador.

2. A única maneira de obrigar os homens a viverem em sociedade é impedi-los de questionarem: a ignorância é colocada no lugar da educação e da formação cultural.

3. A única maneira de manter os homens silenciosos e em condições de não-liberdade é através do terror. J. de Maistre é contra qualquer tipo de liberdade. Todo o poder depende do carrasco. Ele é o terror da sociedade humana e o elo que a mantém unida. Estranha e terrível noção de «contrato»! Não admira que Émile Faguet afirmasse que o cristianismo de J. de Maistre era o «cristianismo de terror», colocado ao serviço da monarquia e da autoridade papal, contra a corrente emancipadora da História. Também Miguel Unamuno refere-se ao seu «matadouro», onde os homens se auto-imolam para fundar a sociedade, obedecer ao poder divino do monarca ou do papa e cumprir o seu desígnio divino oculto, ao serviço não deste mundo mas de outro mundo impenetrável.

Curiosamente, talvez por influência de Unamuno, Guerra Junqueiro fala frequentemente de «matadouro» para designar a vida social e política portuguesa. A verdade é que a visão desapaixonada da natureza e do homem de Maistre não pode ser facilmente descartada, embora o seu misticismo obscurantista possa ser anulado: a violência humana é evidente. Em termos contemporâneos, J. de Maistre é um fascista extremamente reaccionário que aconselhava o terror como meio de dominar os homens e mantê-los ignorantes, passivos e submissos. A sua teoria opõe-se frontalmente à democracia e, de certo modo, mais ao menos disfarçada sob formas mais ténues de violência, continua a ameaçá-la de morte. A corrupção é uma versão moderada dessa teoria fascista que, sem recorrer ao terror evidente, cumpre os mesmos objectivos visados pelo poder tal como formulado por Maistre. As forças subterrâneas antidemocráticas ainda estão presentes nas nossas democracias ocidentais. Convém nunca esquecer isso, se não quisermos regressar à idade do Terror. Protege-te do terror e da ignorância: VOTA no PS e em José Sócrates.

J Francisco Saraiva de Sousa

Leon Trotsky não vota em Francisco Louçã

«A premissa fundamental de uma revolução é que a estrutura social se tornou incapaz de resolver os problemas urgentes do desenvolvimento do país. Uma revolução só se torna possível, porém, no caso de haver na sociedade uma nova classe capaz de tomar a liderança dos problemas apresentados pela História. O processo de preparação de uma revolução consiste em fazer que os problemas objectivos existentes nas contradições da indústria e das classes cheguem à consciência das massas humanas vivas, consiste em modificar essa consciência e em criar novas correlações de forças humanas». (Leon Trotsky)
Francisco Louçã, o líder do Bloco de Esquerda, reclama a herança filosófico-política de Leon Trotsky, mas esta herança do eixo bolchevique rejeita-o categoricamente: Francisco Louçã não é um marxista revolucionário, mas sim um "fariseu da social-democracia" parlamentar mascarada com a roupagem do "aventureirismo individual da intelectualidade" saloia de Lisboa. Talvez devido à influência de Descartes, para quem a infelicidade do homem deriva do facto de ter sido primeiro uma criança, a filosofia política não aprecia o espírito aventureiro, sobretudo quando está impregnado de infantilismo ou de puerilidade: Lenine viu no esquerdismo uma doença infantil do comunismo. Simone de Beauvoir definiu o aventureiro como o contrário do niilista: a aventureiro é o indivíduo que permanece indiferente ao conteúdo, ou seja, ao sentido humano da sua acção política. Francisco Louçã pertence ao grupo dos aventureiros políticos que recusam envelhecer: ele acredita que pode afirmar a sua própria existência sem levar em conta a dos outros, em especial a das peixeiras. O aventureiro só se preocupa com o seu prazer ou a sua glória e, tal como o niilista, despreza os outros homens. O aventureiro não se sente inibido para sacrificar os seres insignificantes - na sua perspectiva inumana - ao seu próprio desejo de poder, sendo impelido a tratá-los como instrumentos ou mesmo a destruí-los no caso de constituírem obstáculo. Os outros encaram-no como um inimigo, o que o força a tornar-se um carrasco para vencer o combate. O aventureiro tende a mostrar-se de acordo com os regimes autoritários e com o fascismo. Os totalitarismos de direita e de esquerda fundam-se neste mesmo espírito aventureiro que sacrifica os outros ao seu próprio desejo de poder e à sua necessidade de fortuna, lazer e prazer.
A teoria de Marx foi implementada pela acção política, tornando-se a base primordial de todas as actividades e de todo o pensamento de esquerda. Porém, desde cedo, a sua influência fez-se sentir em duas direcções opostas: a via reformista protagonizada pela social-democracia, da qual o Partido Socialista Português faz parte, e a via revolucionária seguida pelo eixo bolchevique. Os social-democratas, tais como Karl Kautsky, Eduard Bernstein, Rosa Luxemburgo, Rudolf Hilferding, Karl Renner, Max Adler e Otto Bauer, defendem que os partidos socialistas ou social-democratas podem realizar o socialismo dentro de um Estado constituído democraticamente, utilizando os meios constitucionais, sem recorrer a uma revolução. Os bolcheviques, tais como Lenine e Trotsky, advogam a necessidade de criar e usar um pequeno partido de revolucionários, rigidamente organizado e disciplinado, como a vanguarda consciente da classe operária: o objectivo dos bolcheviques é a conquista do poder político. A divisão política do marxismo pode ser vista noutra perspectiva: a social-democracia ocupou-se e ainda se ocupa do processo de construção do socialismo nos países ocidentais capitalistas avançados e dotados de sistemas políticos parlamentares, enquanto o bolchevismo se ocupou da promoção da revolução num país economicamente atrasado e dotado de um governo despótico, como a Rússia czarista. A Revolução de Outubro de 1917 é obra magnífica do bolchevismo: os seus líderes políticos tiverem êxito porque souberam, no momento oportuno, unir "a política da revolução com a técnica da insurreição". Lenine, Trotsky e os seus companheiros criaram a República dos Sovietes.
O contributo decisivo de Trotsky para a teoria marxista reside na sua teoria da revolução permanente. Retomando o conceito de revolução permanente de Marx, Trotsky usa-o para designar "uma revolução que não faz concessões a qualquer forma de dominação de classe, que não se detém na fase democrática, que passa às medidas socialistas e à guerra contra a reacção exterior, isto é, uma revolução na qual todas as etapas estão ligadas à anterior e que só pode terminar na liquidação completa de toda a sociedade de classes". A teoria da revolução permanente de Trotsky articula, unindo-as, três linhas de pensamento. O primeiro aspecto da teoria de Trotsky afirma que a revolução deve ocorrer numa só tirada, sem passar por um período mais ou menos longo de democracia burguesa. O segundo aspecto diz respeito à revolução socialista como tal. Finalmente, o terceiro aspecto propõe a inevitabilidade do levantamento imediato da revolução internacional resultante do estado da economia e da estrutura social da humanidade. (:::) Trotsky partilhava o desprezo de Lenine pelo sindicalismo puramente reivindicativo, mas censurava-lhe o jacobinismo centralizador ou, nas palavras de Rosa Luxembourg, o seu blanquismo - a concepção do partido como um escol fundada numa centralização rigorosa e numa unanimidade monolítica, a repulsa pela liberdade de crítica e pluralidade das opiniões, o princípio burocrático de nomeação dos responsáveis pelo centro: "O método de Lenine conduzia a isto: a organização do partido (uma pequena comissão) começa por se substituir ao conjunto do partido, depois a Comissão Central substitui-se à organização e, finalmente, um «ditador» substitui-se à Comissão Central". A crítica do centralismo leninista levará mais tarde Trotsky a criticar severamente a burocracia invasora de Estaline e a denunciar aspectos fundamentais da sua política interna, tais como a burocracia, o nascimento de uma nova classe dirigente, o terror, a colocação dos sindicatos sob tutela e o desaparecimento da multiplicidade dos partidos soviéticos, e da sua política externa. Estas críticas aproximam Trotsky da linha da social-democracia europeia: o partido de massas deve funcionar democraticamente como os partidos socialistas ocidentais. Tal como Rosa Luxembourg, Trotsky considera que a omnipotência do poder central do partido comunista está em oposição com a democracia e a liberdade: "A liberdade é sempre a liberdade daquele que pensa de maneira diferente" (Rosa Luxembourg). Se a liberdade não é dada, mas sempre conquistada, a teoria da revolução permanente encara o futuro como um horizonte aberto e é neste aspecto que reside a sua actualidade.
A Queda do Muro de Berlim simboliza o fracasso político do eixo bolchevique na sua tarefa de construir o socialismo. A via revolucionária com a qual o PCP e o BE se identificam sofreu uma derrota histórica estrondosa, mas a via reformista não foi completamente poupada. O desmoronamento do comunismo colheu toda a esquerda de surpresa: o seu alicerce teórico sofreu um terrível abalo sísmico. O neoliberalismo cantou vitória, a globalização consagrou em todo o mundo o pensamento único, e o fundamentalismo de mercado eclipsou durante longos anos sombrios o marxismo. A teoria de Marx - que alimenta o verdadeiro pensamento de esquerda - é uma crítica radical do capitalismo cujos conceitos exigem a superação da totalidade da ordem social vigente. Com o triunfo do neoliberalismo, os socialistas reformistas, que já tinham abandonado a tarefa de construir o socialismo, abdicaram da própria crítica do capitalismo, limitando-se a proteger as instituições de bem-estar social e o Estado-Providência, perante as tensões a que ficaram sujeitas após o colapso da União Soviética. Deste modo, o socialismo reformista abdicou da sua visão da História e da sua tarefa política de provocar a mudança e de a controlar no sentido de fazer avançar a história, acomodando-se completamente ao capitalismo e fazendo o jogo errático das forças de mercado. Ora, se "a realidade não perdoa um único erro teórico", como escreveu Trotsky, então o socialismo reformista que se acomodou ao capitalismo deve assumir o seu erro e inflectir o sentido da sua orientação política. Desistir da tarefa de dar uma direcção à história é entregar o mundo e o homem à deteriorização e ao jogo destrutivo das forças de mercado. A actual crise financeira e económica mostra claramente que o verdadeiro lugar do socialismo democrático se situa entre um passado que merece ser salvo e um futuro construído pelo homem. O socialismo democrático não pode abdicar da sua própria tradição, abandonando-a ao jogo errático das forças irracionais de mercado.
Ora, quando nos posts anteriores rememorei as posições teóricas e políticas dos grandes pensadores da esquerda que vão votar nestas eleições legislativas em José Sócrates, fi-lo para exorcizar a amnésia histórica da esquerda em geral e do PS em particular: a crise financeira e económica mundial veio reforçar a teoria de Marx, mostrando que ela continua a preservar a verdade mesmo quando a práxis política socialista se desvia do seu próprio caminho, sendo tentada pelo neoliberalismo. O marxismo ocidental nunca deu a sua adesão incondicional ao marxismo soviético e o fracasso deste último deu-lhe razão. O fracasso conjunto das duas grandes ideologias - o comunismo e o neoliberalismo - abre caminho a uma nova via: a via já aberta pelos grandes filósofos da esquerda que, sem abdicar da utopia concreta de Marx, recusam a tese hegeliana do fim da história. (:::)
A melhor biografia de Leon Trotsky é a de Isaac Deutscher.
J Francisco Saraiva de Sousa

Jean-Paul Sartre vota em José Sócrates

Jean-Paul Sartre considera «o marxismo como a insuperável filosofia do nosso tempo». «Se a filosofia deve ser, a uma só vez, totalização do Saber, método, Ideia reguladora, arma ofensiva e comunidade de linguagem; se essa "visão do mundo" é também um instrumento que trabalha as sociedades carcomidas, se essa concepção singular de um homem ou de um grupo de homens torna-se a cultura e, às vezes, a natureza de uma classe inteira, fica bem claro que as épocas de criação filosófica são raras. Entre os séculos XVII e XX, vejo três que designarei por nomes célebres: existe o "momento" de Descartes e de Locke, o de Kant e de Hegel e, por fim, o de Marx. Essas três filosofias tornam-se, cada uma por sua vez, o húmus de todo o pensamento particular e o horizonte de toda a cultura, elas são insuperáveis enquanto o momento histórico de que são a expressão não tiver sido superado. Com frequência, tenho observado o seguinte: um argumento "antimarxista" não passa do rejuvenescimento aparente de uma ideia pré-marxista. Uma pretensa "superação" do marxismo limitar-se-ia, na pior das hipóteses, a um retorno ao pré-marxismo e, na melhor, à redescoberta de um pensamento já contido na filosofia que se acreditou superar». (Jean-Paul Sartre)
«A cultura, quanto a mim, é a consciência em perpétua evolução que o homem tem de si mesmo e do mundo no qual vive, trabalha e luta. Se esta tomada de consciência é justa, se não é sistematicamente falseada, nós deixaremos, a despeito dos nossos erros e das nossas ignorâncias, uma herança válida aos que nos seguem. Mas, se subordinarmos o nosso trabalho a imperativos belicosos, faremos dos nossos filhos, que consumirão verdades envenenadas, fascistas ou desesperados. Tomemos cuidado, esse perigo é ameaçador: o número daqueles que, no nosso país, se chamam blusões-negros, aliás hooligans, é crescente. Nós podemos e devemos dizer, desses jovens - sejam quais forem os seus crimes - que somos nós os responsáveis, que, durante estes últimos quinze anos, nós não lhes soubemos dar essa consciência lúcida de si próprios, da sua classe, das alienações de que sofrem, que deixámos essas violências nuas e selvagens por falta de os esclarecer e de os dirigir». «A cultura não tem de ser defendida. Nem pelos militares, nem pelos políticos, e aqueles que se armam em seus defensores são, na verdade, quer queiram quer não, defensores da guerra. Quando os soldados do imperialismo defendem o Pártenon, na realidade é o Pártenon que defende o imperialismo. Não se deve proteger a cultura, o único serviço que ela espera, somos nós, os intelectuais que temos obrigação de o fazer: é preciso desmilitarizá-la». (Jean-Paul Sartre)

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Georg Lukács vota em José Sócrates

«Entre a epopeia e o romance - as duas objectivações da grande literatura épica - a diferença não se deve às intenções íntimas do escritor, mas aos dados histórico-filosóficos que se impõem à sua criação. O romance é a epopeia de um tempo em que a totalidade extensiva da vida não é já dada de maneira imediata, de um tempo para o qual a imanência do sentido à vida se tornou problema, mas que, apesar de tudo, não cessou de aspirar à totalidade.» «O carácter estranho desta natureza - a das relações sociais - relativamente à primeira, a apreensão moderna sentimental da natureza, não são mais do que a projecção da experiência que ensina ao homem que o mundo ambiente que ele mesmo criou não é para ele um lar, mas uma prisão». «O romance é a forma da virilidade amadurecida, por oposição à infantilidade normativa da epopeia; (...) isso significa que o carácter fechado do seu mundo é, no plano objectivo, imperfeição, e, no plano subjectivo do vivido, resignação». «Mundo contingente e indivíduo problemático são realidades que se condicionam uma à outra. Quando o indivíduo não é problemático, os seus fins são-lhe dados numa evidência imediata e o mundo cujo edifício foi construído por esses mesmos fins pode opor-lhes dificuldades e obstáculos no caminho da sua realização, mas sem nunca o ameaçar com um sério perigo interior. O perigo só aparece a partir do momento em que o mundo exterior perdeu contacto com as ideias, a partir do momento em que essas ideias se tornam no homem factos psíquicos subjectivos. A partir do momento em que as ideias são apresentadas como inacessíveis e se tornam, empiricamente falando, irreais, a partir do momento em que são mudadas em ideais, a individualidade perde o carácter imediatamente orgânico que fazia dela uma realidade não problemática. Tornou-se ela mesma o seu próprio fim, porque aquilo que lhe é essencial e faz da sua vida uma autêntica vida, ela o descobre em si de ora em diante, não a título de posse nem como fundamento da sua existência, mas como objecto de busca. todavia, o mundo que o rodeia não instaura senão um outro substrato, uma outra matéria das formas categoriais que instituem o seu mundo interior: é por isso necessário que a brecha intransponível entre o ser efectivo da realidade e o dever-ser do ideal constitua a própria essência do mundo exterior.» «O romance é a epopeia de um mundo sem deuses: a psicologia do herói romanesco é demoníaca, a objectividade do romance, a viril e madura constatação de que nunca o sentido poderia penetrar de lado a lado a realidade e que, portanto, sem ele, esta sucumbiria ao nada e à inessencialidade». (Georg Lukács)
«Com efeito, embora não o admitamos, suponhamos que a investigação contemporânea demonstrou a inexactidão de facto de cada afirmação isolada de Marx. Um marxista ortodoxo sério poderia reconhecer incondicionalmente todos estes novos resultados, rejeitar todas as teses isoladas de Marx, sem por isso, por um só momento, se ver forçado a renunciar à ortodoxia marxista. O marxismo ortodoxo não significa, pois, uma adesão sem crítica aos resultados da pesquisa de Marx, não significa uma fé numa ou noutra tese, nem a exegese de um livro sagrado. A ortodoxia em matéria de marxismo refere-se, pelo contrário, e exclusivamente, ao método. Implica a convicção científica de que, com o marxismo dialéctico, se encontrou o método de investigação justo, de que este método só pode ser desenvolvido, aperfeiçoado, aprofundado no sentido dos seus fundadores; mas que todas as tentativas para o superar ou melhorar levaram apenas à sua vulgarização, a fazer dele um ecletismo - e tinham necessariamente que levar aí. /A dialéctica materialista é uma dialéctica revolucionária.» (Georg Lukács)
J Francisco Saraiva de Sousa

Karl Popper vota em José Sócrates

«Na verdade, existe uma distinção funda-mental entre a crítica democrática e a crítica totalitária, sendo que a de Sócrates era do primeiro tipo, dum tipo que, de resto, constitui o princípio vital do regime democrático. (Ao mostrarem-se incapazes de discernir entre uma crítica construtiva e uma crítica destrutiva da democracia, os seus defensores estão afinal a dar provas de um espírito totalitário. O totalitarismo, obviamente, nunca poderá encarar a crítica numa perspectiva construtiva, já que, para ele, esta põe em causa o princípio de autoridade.» (Karl Popper)
«Na verdade, o homem não poderá nunca mais regressar à pretensa inocência e harmonia da sociedade fechada. O seu sonho do paraíso não é concretizável na Terra. Uma vez instituída a confiança nos poderes da razão e desenvolvidas as suas faculdades críticas, o homem, chamado a exercer responsabilidades pessoais e a favorecer o progresso do conhecimento, deixa de poder retornar a um estado de implícita submissão à magia tribal. Para aqueles que provaram da árvore do conhecimento, o paraíso está perdido. E quanto mais procurarmos ressuscitar a idade heróica do tribalismo, mais certos estaremos de incrementar fenómenos como a Inquisição, as polícias secretas, ou gangsterismos romantizados. Aquilo que começara por ser apenas uma supressão da razão e da verdade, redunda afinal na destruição brutal e violenta de tudo o que é humano. Não é possível retornar a um estado harmonioso da natureza, no sentido em que voltar para atrás implicaria uma regressão total, isto é, o retorno à vida animal.
«Assim, resta-nos enfrentar lucidamente a questão, por muito difícil que isso possa parecer. Se sonharmos com um regresso à infância, se nos deixarmos cair na tentação de delegar nos outros aquilo que nos compete para encontrar a felicidade, se nos furtarmos à incumbência de carregar a cruz que nos pertence, a cruz da humanidade, da razão, da responsabilidade, se nos falhar a coragem e abandonarmos a luta, então teremos que tentar fortalecer-nos na compreensão clara e simples da decisão tomada: o regresso ao estado animal. Pois o caminho da humanidade é só um, o da sociedade aberta, e implica um salto no desconhecido, na incerteza, na insegurança, implica recorrer à razão como meio de planear, o melhor que soubermos, a nossa segurança e a nossa liberdade». (Karl Popper)
J Francisco Saraiva de Sousa

Friedrich Engels vota em José Sócrates

«Alguns socialistas abriram, nestes últimos tempos, uma campanha em regra contra aquilo a que chamam "o princípio da autoridade". Basta dizer-lhes que este ou aquele ato é autoritário para que o condenem. Abusam de tal modo desta maneira sumária de proceder que é preciso examinarmos a coisa mais atentamente. Autoridade, no sentido próprio da palavra, quer dizer: imposição da vontade de outrem sobre a nossa; e, por outro lado, autoridade supõe subordinação. Ora, na medida em que estas duas palavras soam mal e que a relação que representam é desagradável para a parte subordinada, trata-se de saber se há meio de passar sem elas e se - dadas as actuais condições da sociedade - poderemos dar à vida um outro estado social no qual essa autoridade não tenha mais razão de existir e onde, por conseguinte, deva desaparecer.
«Examinando as condições económicas, industriais e agrícolas que estão na base da actual sociedade burguesa, verificamos que tendem a substituir cada vez mais a acção isolada pela acção combinada dos indivíduos. A indústria moderna substituiu as pequenas oficinas de produtores isolados pelas grandes fábricas e oficinas onde centenas de operários vigiam máquinas complexas movidas pelo vapor; os carros e as camionetas nas grandes estradas são suplantados pelos comboios nas vias férreas, tal como as pequenas escunas e faluas à vela o foram pelos barcos a vapor. A própria agricultura caiu pouco a pouco no domínio da máquina e do vapor, os quais substituem lenta, mas inexoravelmente, os pequenos proprietários pelos grandes capitalistas que cultivam com a ajuda de operários assalariados grandes superfícies de terrenos. Em todo o lado a acção independente dos indivíduos é substituída pela acção combinada, a complicação dos processos interdependentes. Mas, quem diz acção combinada, diz organização; ora, é possível a organização sem a autoridade?
«Suponhamos que uma revolução social tenha destronado os capitalistas que presidem agora a produção e a circulação das riquezas. Suponhamos, para nos colocarmos por completo no ponto de vista dos anti-autoritários, que a terra e os instrumentos de trabalho se tornaram a propriedade colectiva dos trabalhadores que os empregam. A autoridade terá desaparecido ou terá pura e simplesmente mudado de forma? Vejamos.
«Tomemos por exemplo uma fiação de algodão. O algodão deve passar pelo menos por seis operações sucessivas antes de ser reduzido a fio, operações que se fazem, na sua maioria, em salas diferentes. Além disso, para manter as máquinas em movimento, é preciso um engenheiro que vigie a máquina a vapor, mecânicos para as reparações quotidianas e numerosos serventes que transportem os produtos de uma sala para a outra, etc.
«Todos estes operários, homens, mulheres e crianças são obrigados a começar e a acabar o seu trabalho a horas determinadas pela autoridade do vapor que não se importa com a autonomia individual. É preciso, pois, primeiramente, que os operários se entendam quanto às horas de trabalho, e que essas horas, uma vez fixadas, se tornem a regra para todos, sem nenhuma excepção. Depois, em cada uma das salas e constantemente, surgem questões de detalhe sobre o modo de produção, sobre a distribuição dos materiais, etc., questões que é preciso resolver imediatamente, sob pena de ver parar toda a produção; quer se resolvam pela decisão de um delegado proposto por cada ramo de trabalho, ou, se possível, pelo voto da maioria, a vontade individual deve sempre subordinar-se; quer isto dizer que as questões serão resolvidas autoritariamente. O mecanismo automático de uma grande fábrica é bem mais tirânico do que alguma vez o conseguirão ser os pequenos capitalistas que empregam os operários. Pelo menos nas horas de trabalho pode-se escrever na porta da fábrica: Lasciate ogni autonomia voi che entrate!. Se, pela ciência e pelo seu génio inventivo, o homem submeteu as forças da natureza, estas se vingam submetendo-o, já que delas se usa, a um verdadeiro despotismo independente de qualquer organização social. Querer abolir a autoridade na grande indústria, é querer abolir a própria indústria, é destruir a fiação a vapor para voltar à roca de fiar. Tomemos, como outro exemplo, a estrada de ferro. Também aí, a cooperação de uma infinidade de indivíduos é absolutamente necessária, cooperação que deve ter lugar em horas bem precisas para que não ocorram desastres. Também aí, a primeira condição para o seu uso é uma vontade dominante que resolva todas as questões subordinadas, vontade representada quer por um único delegado, quer por um comité encarregado de executar as decisões de uma maioria de interessados.
«Num ou noutro caso, há uma autoridade muito pronunciada. Mas, o que é mais: que aconteceria ao primeiro comboio que partisse caso se abolisse a autoridade dos empregados da estrada de ferro sobre os senhores passageiros? Porém, a necessidade da autoridade, e de uma autoridade imperiosa, não pode ser mais evidente que num navio em alto mar. Aí, no momento do perigo, a vida de todos depende da obediência instantânea e absoluta de todos à vontade de um único.
«Quando avanço tais argumentos contra os mais furiosos anti-autoritários, estes não sabem o que responder: "Ah! Isso é verdade, mas o que damos aos delegados não é uma autoridade, mas sim uma missão!". Estes senhores julgam ter mudado as coisas quando só mudaram os nomes. Eis como estes profundos pensadores gozam com as pessoas.
«Acabamos, pois de ver que, por um lado, certa autoridade, atribuída não importa como, e, por outro lado, certa subordinação são coisas que, independentemente de toda a organização social, se impõem a nós devido às condições nas quais produzimos e fazemos circular os produtos.
«Vimos, além disso, que as condições materiais de produção e da circulação se complicam inevitavelmente com o desenvolvimento da grande indústria e da grande agricultura e tendem cada vez mais a estender o campo dessa autoridade. É, pois, absurdo falar do princípio da autoridade como de um princípio mau em absoluto, e do princípio da autonomia como de um princípio bom em absoluto. A autoridade e a autonomia são coisas relativas cujos domínios variam nas diferentes fases da evolução social. Se os autonomistas se limitassem a dizer que a organização social do futuro restringirá a autoridade aos limites no interior dos quais as condições de produção a tornam inevitável, poderíamos entender-nos; em vez disso, permanecem cegos perante todos os fatos que a tornam necessária, e levantam-se contra a palavra.
«Porque é que os anti-autoritários não se limitam a erguer-se contra a autoridade política, contra o Estado? Todos os socialistas concordam em que o Estado político e com ele a autoridade política desaparecerão como consequência da próxima revolução social, ou seja, que as funções públicas perderão o seu carácter político e se transformarão em simples funções administrativas protegendo os verdadeiros interesses sociais. Mas os anti-autoritários pedem que o Estado político autoritário seja abolido de um golpe, antes mesmo que se tenham destruído as condições sociais que o fizeram nascer. Pedem que o primeiro ato da revolução social seja a abolição da autoridade. Já alguma vez viram uma revolução, estes senhores? Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que se possa imaginar; é o ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra por meio das espingardas, das baionetas e dos canhões, meios autoritários como poucos; e o partido vitorioso, se não quer ser combatido em vão, deve manter o seu poder pelo medo que as suas armas inspiram aos reaccionários. A Comuna de Paris teria durado um dia que fosse se não se servisse dessa autoridade do povo armado face aos burgueses? Não será verdade que, pelo contrário, devemos lamentar que não se tenha servido dela suficientemente? Assim, das duas uma: ou os anti-autoritários não sabem o que dizem, e, nesse caso, só semeiam a confusão; ou, sabem-no, e, nesse caso, atraiçoam o movimento do proletariado. Tanto num caso como noutro, servem à reacção». (Friedrich Engels)
J Francisco Saraiva de Sousa

Maurice Merleau-Ponty vota em José Sócrates

O marxismo é, nas palavras de Merleau-Ponty, "o único humanismo que ousa desenvolver as suas consequências": "O marxismo é, no essencial, essa ideia de que a história tem um sentido, isto é, que a história é inteligível e é orientada, que vai em direcção ao poder do proletariado que é capaz, como factor essencial da produção, de ultrapassar as contradições do capitalismo e de organizar a apropriação humana da natureza, como classe universal, de ultrapassar os antagonismos sociais e nacionais e o conflito do homem com o homem. Ser marxista é pensar que as questões económicas e as questões culturais ou humanas são uma só questão e que o proletariado, tal como a história o fez, detém a solução desse único problema. Para falar uma linguagem moderna, é pensar que a história é uma Gestalt, no sentido que os autores alemães dão a essa palavra, um processo total em movimento para um estado de equilíbrio, a sociedade sem classes, que não pode ser atingida sem esforço e sem a acção dos homens, mas que se manifesta no seio das crises presentes como solução dessas crises, como poder do homem sobre a natureza e reconciliação do homem com o homem" (Merleau-Ponty). Ora, dado a história ser essencialmente luta, luta pelo reconhecimento (Hegel) e luta de classes (Marx), a revolução do humanismo socialista (E. Fromm) protagonizada pelas classes humilhadas e ofendidas "assume e dirige uma violência que a sociedade burguesa tolera no desemprego e na guerra e disfarça sob o nome de fatalidade". As revoluções não derramam mais sangue do que os impérios e a exploração hipercapitalista e, por isso, entre as diversas violências, a violência revolucionária deve ser preferida pelo facto de ser o futuro do humanismo realizado: ao contrário da violência retrógrada, a violência revolucionária tem um sentido, aquele que se supera no futuro humano. No horizonte mais vasto do sentido da história e da luta pela reconciliação universal do homem com o homem e do homem com a natureza, a morte, apesar da sua dureza psicológica, não constitui um problema humano, como defendem as "filosofias burguesas" da existência (G. Lukács, A. Heller, K. Kosic, A. Schaff, G. Petrovic, M. Markovic, S. Stojanovic): a problematicidade da morte é superada na e pela luta a favor da construção de uma sociedade mais justa, uma sociedade que ultrapasse as condições sociais que tornam, nas actuais circunstâncias de alienação e de exploração hipercapitalista, a morte problemática para os mortais (M. Verret).
J Francisco Saraiva de Sousa

Simone de Beauvoir vota em José Sócrates

«"Animal racional", "caniço pensante", o homem evade-se da sua condição natural sem, entretanto, libertar-se dela; deste mundo, do qual é consciência, o homem também faz parte; ele afirma-se como pura interioridade, da qual nenhum poder exterior conseguiria apoderar-se, ao mesmo tempo que se experimenta como coisa, esmagada pelo peso obscuro de outras coisas. A cada instante, ele pode apreender a verdade intemporal da sua existência, mas, entre o passado que não é mais e o futuro que não é ainda, esse instante em que existe não é nada. Este privilégio que só ele detém - de ser um sujeito soberano e único no seio de um universo de objectos - partilha-o com todos os seus semelhantes; por sua vez, objecto dos outros, ele não é, na colectividade da qual depende, nada além de um indivíduo». (Simone de Beauvoir)
«Há no interior de si mesmo um perpétuo jogo do negativo; e por aí ele foge, escapa à sua liberdade. /Nada é previamente decidido: é porque o homem tem algo a perder, e que pode perder, que pode também ganhar. /Portanto, faz parte da condição
(ambígua) do homem o facto de poder não realizar esta condição. Para a realizar, é necessário que se assuma como ser que "se faz carência de ser a fim de que haja ser"; mas o jogo da má-fé permite parar em qualquer momento; pode hesitar em fazer-se carência de ser, recuar diante da existência; ou então afirmar-se mentirosamente como ser, ou afirmar-se como nada; pode realizar a sua liberdade apenas como independência abstracta ou, pelo contrário, recusar com desespero a distancia que nos separa do ser. Todos os erros são possíveis, já que o homem é negatividade; e são motivados pela angústia que o homem experimenta diante da sua liberdade.» (Simone de Beauvoir)
«Existir é fazer-se carência de ser, é lançar-se no mundo». «A moral é o triunfo da liberdade sobre a facticidade, e o sub-homem só realiza a facticidade da sua existência; em lugar de engrandecer o reino humano, opõe aos projectos dos outros homens a sua existência inerte». «Querer-se livre e querer que haja ser é uma só e mesma escolha: a escolha que o homem faz de si mesmo enquanto presença no mundo». «Querer que haja ser é também querer que existam homens por quem e para quem o mundo seja dotado de significações humanas. Não se pode revelar o mundo a não ser sobre um fundo de mundo revelado pelos outros homens. Nenhum projecto se define senão por sua interferência com outros projectos». «O homem não pode encontrar senão na existência dos outros homens uma justificação da sua própria existência». «A liberdade só se realiza enquanto engajamento no mundo: de tal forma que o seu projecto para a liberdade se encarna para o homem em condutas definidas. /Querer a liberdade, querer desvendar o ser - eis uma única e mesma escolha». «O oprimido não pode realizar a sua liberdade senão na revolta, já que o próprio da situação contra a qual se revolta é precisamente o facto de lhe impedir qualquer desenvolvimento positivo. É somente na luta social e política que a sua transcendência se ultrapassa até ao infinito.» «A moral, reclamando o triunfo da liberdade sobre a facticidade, reclama também a supressão dos opressores.» «O homem é o ser das distâncias, movimento para o futuro, projecto.» «A violência só se justifica quando abre possibilidades concretas a essa liberdade que pretendo salvar». «Querer impedir um homem de errar é proibi-lo de consumar a sua própria experiência, é privá-lo da sua vida». «Um homem só se entrega a uma Causa fazendo-a a sua Causa».
«A vida é gasta alternadamente em perpetuar-se e em ultrapassar-se. Se ela apenas se mantém, então viver é tão-somente não morrer e a existência humana não se distingue de uma vegetação absurda. Uma vida justifica-se apenas se o seu esforço para se perpetuar estiver integrado na sua superação e se essa superação não tiver outros limites além daqueles que são colocados pelo próprio sujeito. (...) /Cada um deve conduzir a sua luta em conexão com a luta dos outros e integrando-a no desígnio geral. (...) /Porque uma liberdade não pode ser desejada autênticamente se não for desejada como movimento indefinido através da liberdade de outrem. (...) Uma liberdade que não tem como objecto senão negar a liberdade deve ser negada. E não é verdade que o reconhecimento da liberdade do outro limite a minha própria liberdade: ser livre não é ter o poder de fazer não importa o quê, é poder ultrapassar o dado para um futuro aberto. A existência do outro, na medida em que é liberdade, define a minha situação e é ela mesma a condição da minha própria liberdade.» «Querer-se livre é também querer livres os outros». (Simone de Beauvoir)
«Há dois tipos de oposição. O primeiro é uma recusa radical dos próprios fins colocados por um regime: é a oposição do antifascismo ao fascismo, do fascismo ao socialismo. No segundo tipo, o opositor aceita o fim objectivo, mas critica o movimento subjectivo que o visa; pode mesmo não desejar uma mudança de poder, mas julga necessário efectuar uma contestação que fará surgir o subjectivo como tal. Ao mesmo tempo, exige uma perpétua contestação dos meios pelo fim, do fim pelos meios. Ele deve estar atento para não arruinar pelos meios que emprega o fim a que visa; e, em primeiro lugar, para não se colocar ao serviço dos opositores do primeiro tipo. Mas, por delicado que seja, o seu papel não é menos necessário. Com efeito, por um lado, seria absurdo contradizer uma acção libertadora sob pretexto de que ela implica o crime e a tirania, porque, sem crime e sem tirania, não poderia haver libertação do homem: não se pode escapar a esta dialéctica que vai da liberdade à liberdade através da ditadura e da opressão. Mas, por outro lado, seria imperdoável deixar o movimento libertador fixar-se num momento que só é aceitável se passa ao seu contrário; é preciso impedir a tirania e o crime de se instalar triunfalmente no mundo. A conquista da liberdade é a sua única justificação e contra eles deve-se, portanto, manter viva a afirmação da liberdade.» (Simone de Beauvoir)
J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Theodor W. Adorno vota em José Sócrates

«A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas as exigências para a educação. De tal modo, ela precede quaisquer outras exigências que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda a monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a esta exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer debate acerca das metas educacionais carece de significado e importância frente a esta meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará a existir enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. É isto que apavora. Apesar da não-visibilidade actual dos infortúnios, a pressão social continua a impor-se. Ela impele as pessoas em direcção ao que é indescritível e que, nos termos da história mundial, culminaria em Auschwitz». (Theodor W. Adorno)
«Paz é um estado de diferenciação sem dominação, no qual o diferente é partilhado». (Theodor W. Adorno)
«O dogma da unidade entre teoria e práxis é, em oposição à doutrina a que se reporta, a-dialéctico: ele capta simples identidade ali onde só a contradição tem possibilidade de ser frutífera». (Theodor W. Adorno)
J Francisco Saraiva de Sousa

Hannah Arendt vota em José Sócrates

«Está na natureza de uma tradição ser aceite e absorvida, por assim dizer, pelo senso comum, que adequa os dados particulares e idiossincráticos dos nossos outros sentidos ao interior de um mundo que habitamos conjuntamente e que partilhamos em comum. Nesta acepção genérica, o senso comum assinala que na condição humana da pluralidade os homens ponderam e controlam os seus dados dos sentidos particulares por referência aos dados comuns dos outros. Se dissermos que a pluralidade dos homens ou a natureza comum do mundo humano é a sua esfera específica de competência, o senso comum evidentemente operará sobretudo no domínio público da política e da moral, e é neste domínio que nos vemos em dificuldades quando o senso comum e os seus juízos óbvios deixam de funcionar, deixam de fazer sentido.
«Historicamente, o senso comum é romano tanto de origem como em termos de tradição. Não é que os gregos e os judeus não tivessem senso comum, mas só os romanos o desenvolveram a ponto de o tornarem o critério superior na gestão dos assuntos públicos e políticos. Com os romanos, recordar o passado passou a ser uma questão de tradição, e foi no sentido da tradição que o desenvolvimento do senso comum encontrou a sua expressão politicamente mais importante. Uma vez que o senso comum se liga à tradição e é por ela alimentado, quando os modelos tradicionais deixam de fazer sentido e deixam de funcionar como regras gerais que permitem subsumir todos ou a maior parte dos casos particulares, o passado, a rememoração do que temos em comum como comum origem, fica sob a ameaça do esquecimento. Os juízos vinculados à tradição do senso comum recolhiam e salvavam do passado aquilo que fora conceptualizado pela tradição e era ainda aplicável às condições presentes. Este método "prático" de rememoração do senso comum não requeria qualquer esforço, mas recebíamo-lo, num mundo comum, como herança partilhada. Por conseguinte, a sua atrofia provocou imediatamente uma atrofia também da dimensão do passado e desencadeou o movimento arrastado e irreversível de esvaziamento que estende um véu de sem-sentido sobre todas as esferas da vida moderna.» (Hannah Arendt)
J Francisco Saraiva de Sousa

Walter Benjamin vota em José Sócrates

«A consciência de fazer explodir a continui-dade da história é própria das classes revolucionárias no momento da acção. A grande Revolução introduziu um novo calendário. O dia em que começa o novo calendário funciona como um compilador histórico do tempo. E é, no fundo, o mesmo dia que volta sempre sob a forma dos dias de festa, os quais são dias de comemoração. Pode por isso dizer-se que os calendários não contam o tempo como os relógios. São monumentos de uma consciência da história cujo menor traço parece ter desaparecido na Europa desde há cem anos. A revolução de Julho comportou ainda um incidente em que uma tal consciência pôde afirmar os seus direitos. Na tarde do primeiro dia de combate, verificou-se que em vários locais de Paris, independentemente e no mesmo momento, se tinha disparado contra os relógios murais. Um testemunho ocular, que deve talvez os seus dotes divinatórios à rima, escreveu então:
Quem o acreditaria? Diz-se que irritados contra a hora
Novos Josués, ao pé de cada torre,
Atiravam sobre os quadrantes para parar o dia». (Walter Benjamin)
J Francisco Saraiva de Sousa

Friedrich Nietzsche vota em José Sócrates

«Para atingir uma finalidade dessas era preciso um outro género de espíritos, diferentes dos que são possíveis neste nosso tempo: espíritos fortalecidos pela guerra e pela vitória, para quem a conquista, a aventura, o perigo e a dor se tivessem tornado mesmo uma necessidade; e para isso seria preciso uma habituação aos ares limpos das grandes altitudes, aos percursos a pé em plena invernia, ao gelo e às montanhas, em sentido real e figurado; seria inclusivamente necessária uma espécie de maldade sublime, uma suprema malícia do conhecimento, consciente de si própria, que é parte integrante da grande saúde; seria necessária - para dizer em poucas palavras e de forma terrível - precisamente essa grande saúde...! E será que ela ainda é possível?... Mas um dia, numa época mais forte do que este nosso presente podre e incapaz de acreditar em si próprio, terá que vir até nós o homem redentor do grande amor e do grande desprezo, o espírito criador cuja força impulsionadora o arrancará constantemente aos desvios e aos aléns, cuja solidão será mal compreendida pelo povo, como se fosse uma fuga para diante em relação à realidade..., quando de facto é apenas a sua maneira de mergulhar, de se introduzir profundamente dentro da realidade, para mais tarde, ao sair dela, ao voltar à luz, trazer consigo a redenção dessa realidade: a redenção dessa realidade face à maldição que o ideal até hoje reinante lançou sobre ela. Este homem do futuro, que nos salvará não só desse ideal, mas de tudo aquilo que dele tinha que nascer, da grande náusea, da vontade do nada, do niilismo (essa badalada do meio-dia e da hora da grande decisão), que voltará a libertar a vontade, que devolverá à Terra o seu objectivo e ao homem a sua esperança, este anticristo e antiniilista, este homem que triunfará sobre Deus e sobre o nada... virá necessariamente um dia...». (Nietzsche)
J Francisco Saraiva de Sousa

Ivan Illich vota em José Sócrates

«Por convivencialidade entendo o inverso da produtividade industrial. Cada um de nós define-se pela relação com os outros e com o ambiente, assim como pela sólida estrutura das ferramentas que utiliza. Estas podem ordenar-se numa série contínua cujos extremos são a ferramenta como instrumento dominante e a ferramenta convivencial. A passagem da produtividade para a convivencialidade é a passagem da carência para a espontaneidade do dom. A relação industrial é reflexo condicionado, uma resposta estereotipada do indivíduo às mensagens emitidas por outro usuário que jamais conhecerá, a não ser por um meio artificial que nunca compreenderá. A relação convivencial, por outro lado sempre nova, é acção de pessoas que participam na criação da vida social. A mudança da produtividade para a convivencialidade substitui um valor técnico por um valor ético, um valor material por um valor adquirido. A convivencialidade é a liberdade individual, realizada dentro do processo de produção, no seio de uma sociedade equipada com ferramentas eficazes. Quando uma sociedade, não importa qual, repele a convivencialidade para atingir um certo nível, transforma-se em presa da carência, dado que nenhuma hipertrofia da produtividade conseguirá satisfazer alguma vez as necessidades criadas e multiplicadas pela inveja.» (Ivan Illich)
«A medicina é uma mercadoria que escapa a todo o controle de custo e de qualidade. Os membros das sociedades desenvolvidas julgam terem necessidade da indústria médica, mas seriam incapazes de justificar o seu consumo em termos de benefícios reais para a saúde». (Ivan Illich)
J Francisco Saraiva de Sousa

Ernst Bloch vota em José Sócrates

«O racional pode chegar a ser real, o real pode converter-se em racional; tudo depende da fenomenologia, isto é, da história dos fenómenos da verdadeira acção. Esta é uma acção do verdadeiro ou terminação da sua pré-história que todavia perdura; é a transformação do mundo segundo a sua tendência material e dialéctica; é a concordância da teoria-praxis humana com uma realidade coincidente consigo mesma. A contemplação passiva não tem aqui lugar algum; pelo contrário, o saber, que teoricamente não tem fronteiras, deve também na prática realizar-se na libertação socialista das fronteiras, fazendo saltar a servidão e dominando a necessidade. Aqui, em especial, o marxismo distingue-se de todas as filosofias anteriores, também da hegeliana, que lhe é a mais próxima. Porque, com um salto para o novo, que a história não tinha conhecido até então, começa com Marx - continuando e, ao mesmo tempo, superando Hegel - a transformação da filosofia em filosofia da transformação. A filosofia já não será tal se não for dialéctico-materialista; igualmente, é preciso deixar claro, para hoje e para sempre, que o materialismo dialéctico não será tal se não for filosófico, isto é, se não avançar para grandes horizontes abertos. Este avanço é um trabalho teórico e prático contra a alienação em prole da desalienação, isto é, da exteriorização da pátria donde o núcleo ou o essencial do homem e do mundo é capaz de começar a manifestar-se. E precisamente neste tempo, nesta Terra, no reino do nosso conteúdo de liberdade finalmente realizável. A isto conduz também, inconscientemente, a pré-história; mas a história conscientemente instaurada possui o seu tema determinante no conteúdo total, pensado sem cessar e mediatamente antecipado, do reino da liberdade. Algumas realizações parciais do plano, algumas figurações realístico-simbólicas têm dado a conhecer até agora este verdadeiro para onde e para quê. É difícil fazer o simples (B. Brecht), o ser-para-si cujos caminhos devem ser duramente conquistados, cujas excelências exigem coragem. Quanto mais urgente é o domínio dos meios que conduzem a esta meta, mais clara é esta como objectivação dos sujeitos e como mediação subjectual dos objectos. Esta meta da existência humanizada, sempre próxima no sonho das aspirações do homem, esteve sempre utopicamente distante da sua existência real. O movimento real para a sua realidade começou agora, conscientemente, contra a alienação de todos os homens e das coisas, a favor de que o ser-si-mesmo chegue a si. Ao libertar a sociedade de todos os condicionalismos existenciais que levam em si a marca do trabalho alienado, o socialismo irá libertá-la de toda a alienação e criar assim o fundamento para que toda a Terra seja a pátria da humanização. Esta é a antiquíssima intenção para a felicidade: que o interior se faça exterior, que o exterior chegue a ser o interior; intenção que não embeleze e encerre, como em Hegel, o mundo existente, mas que se alie às propriedades da realidade ainda-não-existente, que são portadoras de futuro». (Ernst Bloch)
J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Max Horkheimer vota em José Sócrates

«Se a teoria materialista constitui um aspecto dos esforços de melhoria das condições humanas, então ela, sem mais nem menos, contraria todas as tentativas de tornar secundários os problemas sociais. Não só o espiritualismo mais recente, que hipostasia monadologicamente o indivíduo e, com isso, desvaloriza a estruturação das bases económicas, mas também todos os esforços de diminuir o peso do conhecimento na ordem terrena, no momento em que o olhar é atraído para uma ordem supostamente mais essencial, é que provocam cada vez mais a crítica materialista. Sobretudo, em cada tipo de filosofia que se propõe justificar a esperança infundada, ou pelo menos encobrir a sua infundabilidade, o materialismo vê uma fraude à humanidade. Apesar de todo o optimismo que ele possa sentir em relação à mudança das condições, apesar de toda a valorização da felicidade que brota do esforço pela mudança e da solidariedade, ele carrega consigo um traço pessimista. A injustiça passada é irremediável. Os sofrimentos das gerações idas descobrem pouca compensação. Todavia, enquanto o pessimismo nas correntes idealistas costuma referir-se, hoje, ao presente e ao futuro na Terra, isto é, à impossibilidade da futura felicidade universal, e costuma manifestar-se na forma de fatalismo ou corrente de declínio, a tristeza inerente ao materialismo relaciona-se com factos do passado. As conjecturas gerais (...), as ideias sobre um optimum já superado da produtividade técnica como tal, as concepções pessimistas de uma decadência da humanidade, de uma "peripécia do seu viver e envelhecer (Max Scheler), tudo isso é alheio ao materialismo. Reflecte a perplexidade de uma forma social inibitiva do poder como impotência da humanidade». (Max Horkheimer)
J Francisco Saraiva de Sousa

Karl Marx vota em José Sócrates

«Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam directamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de se apresentar nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adoptou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente como a república romana e como o império romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição revolucionária de 1793-1795. De maneira idêntica, o principiante que aprende um novo idioma, traduz sempre as palavras deste idioma para a sua língua natal; mas só quando puder manejá-lo sem apelar para o passado e esquecer a sua própria língua no emprego da nova, terá assimilado o espírito desta última e poderá produzir livremente nela. O exame dessas conjurações de mortos da história do mundo revela de pronto uma diferença marcante. Camile Desmoulins, Danton, Robespierre, Saint-Just, Napoleão, os heróis, os partidos e as massas da velha Revolução Francesa, desempenharam a tarefa de sua época, a tarefa de libertar e instaurar a moderna sociedade burguesa, em trajes romanos e com frases romanas. Os primeiros reduziram a pedaços a base feudal e deceparam as cabeças feudais que sobre ela haviam crescido. Napoleão, por seu lado, criou na França as condições sem as quais não seria possível desenvolver a livre concorrência, explorar a propriedade territorial dividida e utilizar as forcas produtivas industriais da nação que tinham sido libertadas; além das fronteiras da França ele varreu por toda parte as instituições feudais, na medida em que isto era necessário para dar à sociedade burguesa da França um ambiente adequado e actual no continente europeu. Uma vez estabelecida a nova formação social, os colossos antediluvianos desapareceram, e com eles a Roma ressurrecta - os Brutus, os Gracos, os Publícolas, os tribunos, os senadores e o próprio César. A sociedade burguesa, com o seu sóbrio realismo, havia gerado os seus verdadeiros intérpretes e porta-vozes nos Says, Cousins, Royer-Collards, Benjamin Constants e Guizots; os seus verdadeiros chefes militares sentavam-se atrás das mesas de trabalho e o cérebro de toucinho de Luís XVIII era a sua cabeça política». (Karl Marx)
«As relações sociais estão intimamente ligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens mudam o seu modo de produção, e mudando o modo de produção, a maneira de ganhar a vida, mudam todas as suas relações sociais. O moinho manual dar-vós-á a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial. /Os mesmos homens que estabelecem as relações sociais em conformidade com a sua produção material produzem também os princípios, as ideias, as categorias, em conformidade com as suas relações sociais. /Assim, estas ideias, estas categorias são tão pouco eternas quanto as relações que exprimem. São produtos históricos e transitórios. /Há um movimento contínuo de crescimento nas forças produtivas, de destruição nas relações sociais, de formação nas ideias; de imutável há apenas a abstracção do movimento - mors immortalis.» (Karl Marx)
J Francisco Saraiva de Sousa

Herbert Marcuse vota em José Sócrates

«A tradição clássica associa Orfeu à intro-dução da homossexualidade. Tal como Narciso, ele rejeita o Eros normal, não por um ideal ascético, mas por um Eros mais pleno. Tal como Narciso, protesta contra a ordem repressiva da sexualidade procriadora. O Eros órfico e narcisista é, fundamentalmente, a negação dessa ordem - a Grande Recusa. No mundo simbolizado pelo herói-cultural Prometeu trata-se da negação de toda a ordem; mas nessa negação Orfeu e Narciso revelam uma nova realidade, com uma ordem própria, governada por diferentes princípios. O Eros órfico transforma o ser; domina a crueldade e a morte através da libertação. A sua linguagem é a canção e a sua existência é a contemplação. Essas imagens referem-se à dimensão estética como sendo aquela em que o princípio de realidade das mesmas deve ser procurado e validado». (Herbert Marcuse)
J Francisco Saraiva de Sousa

Friedrich Hayek vota em José Sócrates

«A igualdade perante a lei leva à reivindicação de todos os homens participam igualmente da determinação da lei. É esse o ponto de encontro entre o liberalismo tradicional e o movimento democrático. No entanto, não têm menos uma outra preocupação essencial. O liberalismo (no sentido que esta palavra tinha na Europa no século XIX) procura sobretudo evitar o poder coercitivo que possui qualquer governo, seja democrata ou não, enquanto o democrata dogmático só conhece um limite ao governo: a opinião corrente da maioria. A diferença entre estes dois ideais sobressai claramente se dissermos a que se opõe cada um deles: a democracia opõe-se ao governo autoritário; o liberalismo ao totalitarismo. Nenhum destes dois sistemas exclui necessariamente o contrário do outro: uma democracia pode deter poderes totalitários e concebe-se perfeitamente que um governo autoritário actue segundo princípios liberais». (Friedrich Hayek)
J Francisco Saraiva de Sousa

Alexis de Tocqueville vota em José Sócrates

«A Providência não criou o género humano nem inteiramente independente nem efectivamente escravo. É verdade que traça à volta dele um círculo fatal de que não consegue sair, mas, dentro dos seus vastos limites, o homem é poderoso e livre. O mesmo acontece com os povos. As nações dos nossos dias não conseguiriam com que, no seio delas, as condições não fossem iguais; mas depende delas que a igualdade as conduza à servidão ou à liberdade, às luzes ou à barbárie, à prosperidade ou às misérias». (Alexis de Tocqueville)
J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 20 de setembro de 2009

Mário Soares apoia José Sócrates

Hoje, num comício na Cidade do Porto, Mário Soares juntou-se à campanha eleitoral do PS, para dar o seu apoio firme a José Sócrates e ao PS, tendo feito uma crítica pertinente e profunda ao discurso político de Manuela Ferreira Leite - "uma desgraça", nas palavras de Mário Soares. No seu discurso, Mário Soares arrasou Manuela Ferreira Leite: como economista, acusou-a de não compreender o alcance da actual crise económica, mostrando que essa "desgraça" chamada Manuela Ferreira Leite tomou uma postura "fanática" ou "irresponsável" perante a crise mundial que confunde com a crise de 2003; como política, acusou-a de não ter compreendido a essência da democracia quando a identifica maliciosamente com o regime autoritário e salazarento de Alberto João Jardim, como se no continente vivêssemos num regime de asfixia democrática; e, como líder do PSD, é uma "desgraça": Manuela Ferreira Leite está a fazer uma campanha disparatada e incongruente. Os seus discursos, as suas gaffes constantes, os seus disparates, as suas incongruências, os seus erros, o seu português corrompido, enfim tudo o que diz e faz desmente o seu discurso da credibilidade: Manuela Ferreira Leite vive num outro mundo retrógrado e cognitivamente deprimido, qual Dom Quixote - o mundo do disparate permanente, da incompetência e da eterna saudade de Oliveira Salazar que partilha com Paulo Rangel, o Sancho Pança. O léxico reduzido de Manuela Ferreira Leite dificulta-lhe o exercício livre da imaginação política, levando-a a repetir fórmulas passadas e já fora de prazo. Sofrendo da mesma deficiência cognitiva, Jerónimo de Sousa (PCP) é o companheiro político natural de Manuela Ferreira Leite: as duas figuras do vocabulário político reduzido tentam desesperadamente rejeitar a existência do "papão da direita", mas nesta rejeição fracassada e mentirosa revelam a sua afinidade com fórmulas totalitárias ou fechadas de governo. Manuela Ferreira Leite comporta-se como um zombie asfixiante que quer privatizar o ar que respiramos livremente.
Mário Soares recusou pronunciar-se sobre as escutas de São Bento a Belém, mas não fechou as portas a um entendimento pós-eleitoral com o Bloco de Esquerda, apelando sempre ao voto no PS e a uma maioria confortável do PS: "Sócrates é fixe!". Quando tomou conhecimento desta abertura socialista democrática, Francisco Louçã fez-se difícil, dizendo que Manuel Alegre e Mário Soares defendem políticas de esquerda próximas das do BE (sic) que não foram seguidas por José Sócrates: o Bloco de Esquerda pretende reforçar a sua presença parlamentar não para governar mas para "controlar" o PS. A indecisão regressou novamente ao Bloco de Esquerda, que, apesar de ter elaborado um programa eleitoral extenso, demasiado extenso, ridículo e cativo da tentação totalitária, como se pretendesse conquistar o poder para participar numa fórmula governativa, vacila entre ser um partido do protesto ou um partido de poder, encarando a possibilidade de vir a ser um partido da vigilância. Ora, esta pretensão prisional do BE é demasiado arrogante para uma força política de esquerda conservadora e com tiques totalitários. A indecisão de Louçã gera desconfiança justificada nos eleitores de esquerda: votar BE constitui um risco, porque, dispersando os votos à esquerda, abre o caminho para a vitória do PSD ultraconservador de Manuela Ferreira Leite. Diante dessa possibilidade real, o melhor argumento é concentrar todos os votos de esquerda genuína e moderada no PS, a única força política capaz de salvaguardar, conservar e aprofundar a democracia. Entre o PS e o BE há uma diferença qualitativa significativa que Marx definiu nestes termos: "A democracia é o enigma resolvido de todas as constituições" criadas pelo povo. A democracia real não se esgota na participação episódica na coisa pública por intermédio de umas eleições ou de representantes eleitos. A realização da democracia exige a confusão entre o homem como indivíduo egoísta e o cidadão, mediante a aproximação da existência popular e do empírico político. A realização pelo homem da sua humanidade constitui o traço marcante do liberalismo integral de Marx que sempre distinguiu o PS dos outros partidos da esquerda radical. O socialismo democrático encontra aqui - na realização da cidadania plena - o seu terreno originário, opondo o seu modelo de sociedade aberta ao regresso das sociedades fechadas desejado pelas pseudo-esquerdas irresponsáveis e pelas direitas saudosistas. Nestas eleições legislativas, não há verdadeiramente alternativa ao PS. O futuro de Portugal depende da vitória confortável do PS: votar no PSD salazarento de Manuela Ferreira Leite, no seu aliado descarado - o PCP dirigido por essa figura peregrina que é Jerónimo de Sousa, ou no BE que busca compulsivamente a aventura das nacionalizações generalizadas e globais e da abolição dos benefícios fiscais é votar contra a modernização de Portugal. O voto genuíno, o voto útil, é no Partido Socialista.
J Francisco Saraiva de Sousa

Manuel Alegre apoia José Sócrates


Ser ou não ser
Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marcas
e os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.
Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.
Até quando? Até quando?
Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor. (Manuel Alegre)
Ontem, num comício em Coimbra, Manuel Alegre juntou-se à campanha eleitoral para manifestar o seu apoio incondicional a José Sócrates e a um governo de esquerda do PS: a família socialista está unida na luta contra esses fantasmas do passado que regressam liderados por Manuela Ferreira Leite. O futuro de Portugal cabe a cada um dos portugueses: ou escolhem a via do não ser - a via do erro - e submetem-se aos caprichos desses velhos fantasmas que nos asfixiam ou optam pela via do ser - a via da verdade - e revoltam-se contra a capital da dor, roubando-lhe as armas para derrotar nas urnas o PSD ultraconservador e salazarento de Manuela Ferreira Leite. Esta decisão não pode ser adiada: hoje é o tempo certo para escolher a via do ser e votar no PS liderado por José Sócrates. Votar PS é votar no Ser; votar PSD é votar no Não-Ser. O caso do TGV clarifica essa diferença qualitativa: construir o TGV é optar pelo ser e pela modernização de Portugal; adiar eternamente a sua construção é escolher o não ser e o isolamento nacional. Só há uma escolha verdadeira: votar PS, votar SER um país moderno, desenvolvido, democrático e liberto dos fantasmas do passado que nos condenaram ao atraso, à asfixia social e à asfixia democrática. Manuela Ferreira Leite comporta-se como um zombie asfixiante que quer privatizar o ar que respiramos livremente!
J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 19 de setembro de 2009

Palácio de Belém: a Maldição de Lisboa


As pessoas que dominam as ciências ocultas sabem que Lisboa foi amaldiçoada por um justo, sendo habitada por uma força maléfica que cresce de dia para dia. Os seus objectivos derradeiros permanecem ocultos, mas os iniciados suspeitam que essa maldição trará adversidade, azar ou algo muito ruim à vida das pessoas corruptas que habitam Lisboa. O pior cenário prevê que essa força pode invadir outras zonas de Portugal, nomeadamente a Sul, trazendo a desgraça e a morte lenta e dolorosa. Algo de terrível vai acontecer em Lisboa!

... E eis que hoje de manhã leio este artigo de Emídio Rangel no Correio da Manhã: a profecia nocturna dos meus amigos das ciências ocultas cumpriu-se ou, pelo menos, começou a cumprir-se, desmascarando a conspiração laranja. Se essa é a maldição de Lisboa, então não tem nada de sobrenatural e pode ser combatida nas urnas, votando contra o PSD ultraconservador de Manuela Ferreira Leite.

A RESIGNAÇÃO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA. Emídio Rangel exige, no seu artigo "A Conspiração" publicado hoje no Correio da Manhã, a resignação de Cavaco Silva. Eis alguns excertos deste artigo seleccionados por Eduardo Pitta:
«O Presidente está “acusado” de promover uma conspiração contra outro órgão de soberania. /(...) É um facto que a “inventona” das escutas a Belém foi gerada, na Presidência da República, por Fernando Lima, um homem-forte do Presidente, e utilizou o jornal Público, dirigido por José Manuel Fernandes, que agora abandona o barco, ao que se diz, para se juntar ao staff do Presidente da República. /(...) Se se confirmar - é necessária a reconfirmação de tudo - tudo o que ficou agora jornalisticamente provado e se, em tempo útil, o Presidente da República não se pronunciar sobre o assunto, mostrando-se à altura do cargo e das responsabilidades que os portugueses lhe confiaram, não há outra saída que não seja a resignação. O Presidente da República está “acusado” de promover uma conspiração contra outro órgão de soberania, enquanto prega a cooperação institucional entre Belém e S. Bento. Ou prova, ou se demarca, sem equívocos, ou resigna, porque feriu de morte a confiança dos portugueses e já não pode continuar a ser o garante do regular funcionamento das instituições democráticas. Quem adopta estas práticas perde todas as hipóteses de continuar a exercer uma magistratura de influência na sociedade e não será mais aceite como Presidente de todos os portugueses. O assunto é muito grave.» (Vota PS e vem conhecer José Sócrates aqui.)
J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Manuela Ferreira Leite, Salazar e Política da Verdade


Os sectores mais liberais do PSD estão deveras assustados com a semelhança entre as políticas da verdade da sua actual líder - Manuela Ferreira Leite - e do defunto Oliveira Salazar. O texto de José Pedro Gomes capta muito bem essa terrível semelhança tão do agrado de alguns fascistas portugueses, nomeadamente do autor homófobo deste blogue das trevas: «Reduzir a luta política a um combate entre a "verdade" de que se tem o monopólio e a "mentira" que se procura incrustar na identidade dos adversários, como raiz de todas as suas posições, é o caldo ideológico que se encontra na atmosfera malsã que rodeia a pulsão autoritária que dá energia a todos os ditadores».

O salazarismo ainda não foi seriamente estudado: as chamadas elites intelectuais portuguesas são estruturalmente avessas ao pensamento e ao trabalho intelectual. Em 1963, Ernst Nolte publicou o seu livro sobre o fascismo - Der Faschismus in seiner Epoche, onde apresentou as grandes linhas da sua interpretação histórico-filosófica do século XX. O sistema liberal é visto como a matriz das duas grandes ideologias do século XX: o comunismo e o fascismo. O comunismo levou ao extremo a transcendência da sociedade moderna - a abstracção do universalismo democrático que resgata o pensamento e a acção dos homens aos limites da natureza e da tradição, enquanto o fascismo procurou inspiração em Nietzsche e na sua vontade de proteger a "vida" e a "cultura" contra a transcendência, de modo a tranquilizar os homens em relação à angústia de serem livres e sem determinações. A obra de Nolte deu origem a grandes controvérsias científicas e filosóficas na Alemanha e fora da Alemanha, mas passou despercebida em Portugal. No entanto, quando defendeu a revisão constitucional para ilegalizar o comunismo ou legalizar o fascismo, Alberto João Jardim - um dirigente destacado do PSD - retoma a clivagem entre comunismo e fascismo que interpreta como as duas faces de um mesmo fenómeno, o totalitarismo. Ora, se as duas ideologias reflectem o totalitarismo - o comunismo, o totalitarismo de esquerda, e o fascismo, o totalitarismo de direita, então não se justifica - na sua perspectiva - a discriminação que a constituição faz entre ambas: ou se legalizam as duas versões do totalitarismo ou se ilegalizam ambas.

Alberto João Jardim lançou um desafio pertinente que merecia ser debatido na esfera pública, mas os dirigentes políticos lisboetas, incluindo os do PCP, acompanharam os seus jornalistas - especialistas na criação de intrigas e de mentiras, acentuando a "boçalidade" do dirigente madeirense, em vez de analisar objectivamente a sua proposta. A recusa lisboeta de debater o tema do fascismo é sintomática: Lisboa protagoniza uma revolução conservadora e a psicologia das suas classes médias propicia e encoraja, em circunstâncias de centralização extrema, o crescimento do movimento fascista. Os lisboetas não querem discutir o fascismo, porque são efectivamente fascistas. O Risorgimento lisboeta iniciou-se com os governos de Cavaco Silva que pilharam o Norte para enriquecer o Sul e Manuela Ferreira Leite pretende retomar essa pilhagem asteca. O neoliberalismo é a forma mais recente assumida pelo fascismo na era da globalização, e, em Portugal, foi utilizado pelos governos do PSD para reforçar o poder central contra os poderes regionais, tomando a forma de uma conspiração do capital financeiro concentrado em Lisboa contra o tecido industrial do Norte e o tecido produtivo nacional. O cavaquismo é, na sua essência, um processo de acumulação do capital português. (:::)

O discurso de Salazar é o discurso de Manuela Ferreira Leite: ambos dizem representar uma política da verdade e da sinceridade. Como mostrou José Sócrates no debate com Manuela Ferreira Leite, o programa minimalista do PSD está repleto de apagões, isto é, de omissões, que só podem ser clarificadas recorrendo a propostas anteriores feitas pelos dirigentes do PSD. A Direita ultraconservadora está com medo de perder o controle sobre a política nacional e os centros de decisão nacional e, como não tem outro projecto político a não ser o da privatizações globais da Segurança Social, da Saúde e da Educação, precisa de recorrer a uma manobra de diversão perversa e maligna, retomando o velho discurso salazarento: Manuela Ferreira Leite é o zombie que dá rosto a esse discurso conspirado em quartos escuros, como diz o poeta que pensou a azulidade do azul anímico (Georg Trakl). A família cavaquista alargada liderada por Manuela Ferreira Leite optou por mover uma conspiração mediática negra contra José Sócrates. (Em construção.)

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Sondagem: PS ganha avanço sobre o PSD


O PS dispõe de um avanço de seis pontos percentuais sobre o PSD, de acordo com sondagem realizada pela Universidade Católica para o JN, o DN, a RTP e a Antena 1 (Veja aqui.):
PS - 38%.
PSD - 32%.
BE - 12%.
CDU - 7%.
CDS - 7%.
A Direita tem sede sanguinária do poder, mas esta sondagem mostra que o povo português anseia por uma clara viragem à Esquerda. Depois de uma campanha maquiavélica montada pela Direita contra José Sócrates, os debates foram decisivos para desfazer os fantasmas forjados por mentes sedentas de poder. Os portugueses não são idiotas culturais, como pensa a Direita dirigida por Manuela Ferreira Leite: o povo português sabe o que é a ditadura e a pobreza. Os portugueses acordaram para fazer justiça à obra magnífica criada pelo governo de José Sócrates. A continuação dessa obra que nos liga - via TGV - ao centro da Europa e ao mundo desenvolvido depende da concentração dos votos no PS: votar no Bloco de Esquerda ou no PCP (CDU) é desperdiçar votos para a Direita salazarenta, aquela que nos governou sem ter coragem para fazer as reformas necessárias para a modernização de Portugal. Com José Sócrates Portugal ficou inegavelmente mais moderno e mais seguro do que deseja fazer para conquistar o futuro. Votar PS é votar no futuro de Portugal e no seu progresso, sem correr o risco de regressar aos tempos sombrios do salazarismo.
J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Os Fantasmas do PSD

O realismo fantástico tal como foi elaborado por Louis Pauwels e por Jacques Bergier já não tem audiência e, por isso, a sua aplicação ao domínio da política portuguesa por parte das mentes fantásticas e senis do PSD de Manuela Ferreira Leite parece estar condenada ao fracasso. Depois do caso real do BPN que deu visibilidade a uma extensa teia de corrupção envolvendo figuras ligadas aos governos do PSD, os portugueses adquiriram uma imunidade natural que os protege dos produtos assombrados cuspidos pela imaginação fantástica e fantasmagórica das mentes laranjas desesperadas: asfixia democrática, controle da comunicação social, controle das forças policiais, controle das empresas, maçonaria, freeport, etc., são fantasmas inventados, conspirados e atribuídos pelo PSD ao PS e ao governo de José Sócrates, com o objectivo de difamar e denegrir a imagem do Primeiro-Ministro, bem como a sua imensa obra que arrancou Portugal do marasmo e da inércia. Pacheco Pereira não acredita na teoria da conspiração, porque ele próprio a utiliza para dar visibilidade aos fantasmas do seu partido: os conspiradores negam participar na conspiração que arquitectaram, mas nessa negação confirmam a conspiração em curso que só é travada quando os fantasmas se desfazem sob o efeito da força gravitacional da lei e da verdade.
Pacheco Pereira recorre à noção de escassez para justificar ideologicamente a situação de penúria nacional, restituindo-nos sem disso ter consciência teórica a visão autoritária de Hobbes: a visão do homo homini lupus. Embora Marx e Engels estivessem mais interessados pelo excedente ou pela parte maldita, o conceito de escassez não é completamente estranho ao marxismo. Sartre retomou-o para mostrar que a história real dos homens não é necessária: a história tem como origem e fundamento inteligível um facto contingente, a escassez ou carência de recursos em relação ao número de bocas a alimentar. A ausência de reciprocidade deve-se à escassez que transforma o outro em inimigo. A escassez condena todas as sociedades humanas - e não apenas a sociedade portuguesa, como supõe erradamente Pacheco Pereira - a eliminar uma parte dos seus membros, reais e possíveis, antes de terem nascido ou depois de terem visto a luz do dia. A escassez obscuramente experienciada é interiorizada pelas consciências, criando um clima de violência, no qual decorre toda a história humana. Para Sartre, a inumanidade do homem para o homem tem uma causa historicamente permanente, mas ontologicamente acidental: a escassez não só imprime a inumanidade a todas as relações entre os homens, como também põe em movimento a dialéctica da história. Neste clima de conflito, a praxis individual está imediatamente ameaçada, na sua liberdade, pela praxis dos outros. Cada um de nós é projecto - apreensão global do ambiente em função da situação percebida e da finalidade desejada, mas no seio da escassez não é possível ocorrer a reciprocidade das liberdades: as consciências objectivam-se nas suas obras e esta objectivação torna-se alienação, na medida em que os outros a roubam e falseiam a sua significação, transformando a organização social em coisa - o prático-inerte, à qual os indivíduos se submetem como a uma necessidade material. A antipraxis ou antidialéctica caracteriza todas as relações interindividuais na servidão do prático-inerte, fazendo com que o homem seja o instrumento do homem em todos os lugares do mundo.
Porém, a escassez permite a Sartre transitar do mundo sem esperança, onde a escassez torna os homens inimigos uns dos outros, para um mundo mais solidário, através da superação comum do isolamento das praxis individuais, das suas rivalidades, das suas sujeições recíprocas e do conjunto do prático-inerte. Ora, é precisamente a urgência política desta superação dialéctica do regime da escassez que distingue o PS do PSD: Pacheco Pereira encara a escassez como uma fatalidade natural necessária, da qual não podemos libertar-nos, condenados a nascermos livres e, ao mesmo tempo, a estarmos acorrentados pela escassez em todos os lugares do mundo (Rousseau), enquanto Sartre - na peugada de Hegel e de Marx - concebe a sua superação dialéctica, antecipando a aurora da abundância e da reciprocidade das consciências. A ideologia do PSD, tal como explicitada por Pacheco Pereira, desiste da luta contra a escassez predominante em Portugal e contra o clima de violência que a carência gera materialmente, condenando Portugal à falsa dialéctica da escassez e da conspiração. O PSD de Manuela Ferreira Leite é profundamente reaccionário: o seu único objectivo político é reduzido à mera luta material pelo controle dos escassos recursos nacionais, mediante a conquista do poder político, luta esta que visa eliminar os adversários políticos, falsificando fantasmagoricamente o significado da sua obra, sem levar em conta a possibilidade de um projecto colectivo, em torno do qual as consciências se unam numa vontade comum: a luta por um Portugal liberto da escassez e da conspiração. A luta do PSD não é a luta pela construção de um mundo melhor, mas sim a luta pela manutenção do controle e da concentração dos escassos recursos nacionais por parte de uma família ideológica alargada de clones. O PSD trama conspirações fantásticas para eliminar os seus adversários políticos que têm um projecto verdadeiramente nacional. O PSD gerou quase toda a corrupção nacional que bloqueia o futuro de Portugal. Lutar contra o PSD constitui um imperativo nacional: o nosso futuro depende da derrota eleitoral do PSD de Manuela Ferreira Leite, a assombração de um regime musculado de Direita.
J Francisco Saraiva de Sousa